quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009
domingo, 16 de Novembro de 2008
Dead again
sexta-feira, 7 de Novembro de 2008
Tanto que é pouco
segunda-feira, 3 de Novembro de 2008
Por onde vamos
quarta-feira, 29 de Outubro de 2008
Na partida
segunda-feira, 27 de Outubro de 2008
Enquanto a vontade existir

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit deja
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur
Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'apres ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te racont'rai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
À te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Jacques Brel
(Sem pressão e sem receio)
sábado, 18 de Outubro de 2008
Puedo escribir los versos más tristes esta noche
Escribir, por ejemplo: «La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos».
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.
Pablo Neruda
sexta-feira, 17 de Outubro de 2008
Longe o eco

Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo
Mia Couto
domingo, 12 de Outubro de 2008
Nada poético

O que faço quando não me ouves?
Quando te procuro na rua, em casa, nos teus amigos.
O que faço quando o teu olhar não me encontra?
Quando te afastas, quando já não estás perto sequer.
O que faço quando voltas para aquilo que conheces?
Quando não me deixas chegar junto.
O que faço quando te sinto?
Quando não te posso ter.
sexta-feira, 10 de Outubro de 2008
quinta-feira, 9 de Outubro de 2008
quarta-feira, 8 de Outubro de 2008
Sempre eterno tempo
sexta-feira, 3 de Outubro de 2008
A caminhar
terça-feira, 30 de Setembro de 2008
I tremble at your name

Love,
Love changes everything,
Hands and faces,
Earth and sky,
Love,
Love changes everything,
How you live and
How you die
Love
Can make the summer fly,
Or a night
Seem like a lifetime.
Yes, Love,
Love changes everything,
Now I tremble
At your name.
Nothing in the
World will ever
Be the same.
Love,
Love changes everything,
Days are longer,
Words mean more.
Love,
Love changes everything,
Pain is deeper
Than before.
Love
Will turn your world around,
And that world
Will last for ever.
Yes, Love,
Love changes everything,
Brings you glory,
Brings you shame.
Nothing in the
World will ever
Be the same.
Why did I go back to see her...?
... It's all in the past...
Off
Into the world we go,
Planning futures,
Shaping years.
Love,
Bursts in, and suddenly
All our wisdom
Disappears.
Love
Makes fools of everyone,
All the rules
We make are broken.
Yes, Love,
Love changes everyone.
Live or perish
In its flame.
Love will never,
Never let you
Be the same.
Musical "Aspects of Love"
terça-feira, 23 de Setembro de 2008
quinta-feira, 18 de Setembro de 2008
Um em dois

O amor é a única resposta duma existência em plenitude.
Não é um objecto, nem algo que se conquista.
É um estado interior de profunda sensibilidade à vida.
É uma festa e uma alegria que surge quando a nossa mente morre para os preconceitos enganadores e para as mentiras.
É por isso que o Amor nunca é imoral.
Júlio Roberto
(Porque os preconceitos e os bloqueios, sejam eles quais forem, nos toldam a forma de viver)
segunda-feira, 15 de Setembro de 2008
Fim de uma era

O que fazes aqui?
Ouço perto os sinos. Vejo os telhados à minha frente. Sinto o rio. A cidade está ao largo, afunda-se, resta o meu canto. O cheiro da aldeia está lá em baixo, nas escadas curtas, largas, que dão mau-jeito de subir, de tão pouco que obrigam a levantar o pé. A sensação de caminhar sem sair do lugar.
Ficas?
Todas as mudanças estão atrasadas. Quero sair, quero trocar, quero mudar, quero procurar. Quero descobrir o que posso aprender contigo. Quero mostrar que também eu deixei aqui algo de novo. Quero crer que faz sentido.
O que estranhas?
O silêncio, a falta das ondas, o sol com brilho de mar, a terra com cheiro de algas, o jantar com marcas de cera, o domingo na cidade, o alcatrão que percorro. Tu és um estranho. Não te reconheço em lado nenhum. Procuro e não te ouço nos meus sonhos.
sexta-feira, 12 de Setembro de 2008
E agora onde estou?

O que pensas?
Penso em ti. Espero pela voz dele. Não descanso enquanto não o ouço. Quero ficar contigo. Penso em ti e tenho medo. Não sentia isto desde há muito tempo.
O que vais fazer?
Fica aqui. Quero o azul e o bege. O teu olhar é a entrega. Não é uma declaração, é uma afirmação. És tão absolutamente diferente. Tenho medo.
Represento um padrão?
Sou eu que o encontro. Saio mais cedo. Antes, falo sem noção onde aquilo me leva. Não sei onde ficar.
O que procuras?
Despoluir-me, serenar, envolver-te. Saber o que vou fazer daqui em diante. Largar a voz dele, não esperar. Admiro-te. Não saias.
segunda-feira, 8 de Setembro de 2008
Constante

Diz que aprende. Repete os erros. Nem sempre. Cinco segundos antes de errar, consegue desviar-se da desgraça. Chegam-lhe à memória os cenários que aquele erro pode provocar. Sabe onde está o erro. Melhor, sabe a forma de o evitar. Já não repete os mesmos erros. Agora comete outros.
O jogo está a seu favor. Marca 2-1. Mais uma vez, percebe a fragilidade daquele instante. Imagina ter percebido o adversário. Continua sem perceber as regras. Mas joga. E ilude-se, porque acredita piamente naquilo que quer acreditar. Sabe o que está do outro lado do espelho. E não serena.
sexta-feira, 29 de Agosto de 2008
Infinito

Na realidade eu já sabia disto há muito tempo. Não se tratava de uma dificuldade em admitir esta realidade. Tratava-se sim, hoje compreendo-o claramente, da dor que me causava verbalizá-lo ou mesmo até, da simples passagem desta sensação pelo meu pensamento.
Tantas pessoas que sentem, tanto que gostam, tanto que querem, e tal não é suficiente para vencer. Simplesmente, não podem permanecer juntas. Procuram-se uma vida inteira, chegam mesmo a cruzar-se em determinado momento, e por algum designio misterioso (ou não tão misterioso assim) acabam separadas. Porque a distância é longa, porque o caminho a alcançar vai ficando para trás, porque se perdem de vista, porque o tempo apaga as marcas que se perseguiam.
Hoje é dia bom para dizê-lo em voz alta, para gritá-lo e fazer-me acreditar no que digo, que não procuro mais respostas, que aceito aquilo que desconheço. Hoje é dia bom para olhar para o horizonte, para olhar na tua direcção, para te imaginar feliz, completo, sem lamentar a distância. Deixo as perguntas de lado, acalmo a minha sede.
terça-feira, 26 de Agosto de 2008
Até ao fim

A mesma saudade, a mesma esperança incessante, a mesma vontade impotente e triste. Porque amamos sempre a pessoa "diferente", procuramo-la em todas as situações e variantes da vida... sabes?
O maior segredo e a maior dádiva da vida, quando duas pessoas "semelhantes" se encontram. Isso é tão raro, como se a natureza impedisse com força e astúcia essa harmonia.
Talvez porque para a criação do mundo e para a renovação da vida, necessita da tensão que se gera entre as pessoas que se procuram eternamente, mas que têm intenções e ritmos de vida opostos.
Sabes? Corrente alterna... onde quer que olhes, lá está essa troca de forças positivas e negativas. Quanto desespero, quanta esperança cega existe atrás dessa tal diversidade.
Podes alcançar tudo na vida, podes vencer tudo à tua volta e no mundo, a vida pode oferecer-te tudo e podes tirar tudo da vida, mas nunca podes mudar os gostos, as inclinações, o ritmo da vida de uma pessoa, aquela diferença que caracteriza por completo uma pessoa, a pessoa que é importante para ti, que te interessa.
S. Márai
(Sem mágoa, apenas com saudade, com vontade de apaziguamento)
terça-feira, 19 de Agosto de 2008
Abandono

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia e,
se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos.
Fernando Pessoa
(Porque o nosso tempo irá sempre trazer-me nostalgia e saudade. Porque guardarei tudo com afecto e com a bravura de sabê-lo perdido)
O teu silêncio

There was a time when I would have followed you
To the end of the earth
I was willing to share it all with you
The love, the hurt
I've seen you when your dreams were falling in the dust
But I never stopped believing in you
I always thought our love was strong enough
One you could hold on to
You never see it coming
You just let it fly
On silent wings, silent wings
You can't hide what you feel inside !!! you !!!
And the fire has left your eyes
On silent wings
I see us in our dreams and we're dancing
I can almost hear the song
But the prayers, they go unanswered
But we both know, we're just hanging on
I feel ashamed, but I'll never know the reason why
The rug was pulled so gently from under my feet
I only know that something good has died
Between you and me, oh it's just a memory
You never see it coming
You just go separate ways
On silent wings, silent wings
There's no more promises to break
Or our love has slipped away
On silent wings
You never see it coming
But you know it has to end
On silent wings, silent wings
I will never be the same again
I feel the whisper of the wind
On silent wings
Tina T.
(Porque de facto eu estava disposto a seguir-te onde fosses e onde me quisesses levar. Porque houve um tempo em que quis partilhar tudo contigo. Porque sempre achei que o que nos unia era forte o suficiente para caminharmos ao lado um do outro. Porque sou eu que não escondo a desilusão de ver que o teu olhar perdeu o gosto em procurar o meu. Porque de facto vejo-nos em sonhos, que teimam em acabar sempre a meio, sem que eu perceba a razão, mas tão cansado já de procurar as respostas. Porque todos os meus pensamentos procuraram por ti, em vão. Porque algo quebrou e sentia ser eu o único a colar os fragmentos. Porque quiseste seguir outro caminho. Porque me transformaste, que bom que foi. Porque a tristeza é uma forma de egoísmo, eu vou parar).
segunda-feira, 18 de Agosto de 2008
Consequência
quinta-feira, 14 de Agosto de 2008
A viagem

Aquilo que nem sempre será verbalizado,
Muito mais do que aquilo que se repete,
Tudo o que é tão somente sentido,
O tanto que é percebido,
O receio de te perder,
O instinto de te proteger,
Perceber que já há muito partiste,
Nunca me disseste ter eu ido contigo,
Tu que começas hoje uma viagem,
Eu que te espero nunca mais,
Fico a torcer daqui deste lado,
O delírio de te alcançar a meio.
terça-feira, 12 de Agosto de 2008
Por dias altos e baixos

Ainda a propósito do cansaço, é desse que volto a falar hoje. A vontade em deixar-me levar e o cansaço, aquele que me bloqueia, que não me permite passar dos primeiros momentos, que reclama protecção, que reclama um toque na minha pele, que grita por um abraço que me envolva e que não me largue nunca mais.
Este ano tem sido marcado por uma fase de descoberta enorme. Pela primeira vez na minha vida encontro-me a pensar sobre as minhas reacções, a perceber o que significam e a fazer um esforço para combater aquelas que entendo serem prejudiciais, tanto para mim, como para os que me rodeiam.
Tenho vivido um manancial de experiências, que acredito serem proveitosas para o meu amadurecimento. No entanto, pergunto-me constantemente se estas experiências seriam absolutamente necessárias ou se são apenas fruto de uma necessidade interna. A necessidade imperiosa de fugir de mim, tanto quanto possível.
Procuro por toda a parte, menos no único sítio em que devia fazê-lo, em mim próprio. Imagino aqui dentro um reservatório de emoções que teima em manter-se esgotado, que não deixa inundar-se de maneira nenhuma, que rejeita tudo, não sei com o medo de quê...
Estou bem onde não estou e só quero ir onde não vou, é parte de uma letra com a qual me identifico, que me faz perceber haver ainda um longo caminho a percorrer.
segunda-feira, 11 de Agosto de 2008
Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada,
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas,
Essas e o que faz falta nelas eternamente,
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada,
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles,
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos
sexta-feira, 8 de Agosto de 2008
Esquecer

"Esquecer é acordar e não saber
Esquecer é por ti passar e não te conhecer
Esquecer é viver o que já vivi
Esquecer é falar a mentir
Esquecer é não ver o já visto
Esquecer é não querer o infinito
Esquecer é chorar por lembrar
Os sitios por onde tivemos que passar
Esquecer é perder o que encontramos
Esquecer é dizer o que não nos lembramos
Esquecer é fugir e não querer
Esquecer é uma maneira de sofrer"
C. Lispector
sexta-feira, 1 de Agosto de 2008
Futuro

Quero ser o teu melhor amigo
Quero que vejas em mim o amigo de sempre
Quero ouvir as tuas paixões sem sentir o coração apertado
Quero contar contigo para apaziguares os meus sobressaltos
Quero que me procures a meio da noite para eu te acalmar
Quero desafiar-te para programas decididos naquele momento
Quero ser o amigo confidente
Quero que sejas o amigo presente, preocupado, constante
Quero ser o amigo do riso e das lágrimas
Quero esquecer o vazio que vem depois do abraço
Quero dar o melhor de mim
Quero-te bem, quero-te verdadeiro
Não consigo dar nem mais um passo
Não consigo conter e acalmar o meu coração
Não consigo ver-te sem vontade de te abraçar
Não consigo deixar-te sem vontade de olhar para trás
Espero pelo dia em que a solidão seja apenas um vestígio
Espero que sejas tão paciente quanto eu terei de lutar
Espero o que nunca me deste... uma carta cheia de palavras
O reencontro é nosso...
quinta-feira, 31 de Julho de 2008
Carta de Amor

"Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas."
Álvaro de Campos
terça-feira, 29 de Julho de 2008
Grito mudo

Hoje é um dia difícil. Tudo à volta se desmorona, tudo concorre para fazer de mim uma pessoa mais forte, para sair por aí sem pressa de regressar, para fugir sem vontade de ser procurado.
Fazes-me muita falta. Todos os dias, hoje, em particular. Sinto a falta do teu abraço, que sempre me envolveu, que sempre me fez sentir a pessoa mais desejada e mais acarinhada.
Sinto a falta dos teus braços à minha volta, que sempre me protegeram, que sempre me fizeram sentir a pessoa mais segura e mais confiante.
Sinto a falta do teu olhar, da tua voz, do teu riso verdadeiro, do teu cuidado em escolher a roupa que eu iria vestir, do teu carinho ao penteares o meu cabelo, da tua preocupação em cuidar da minha pele.
Sinto a falta da tua mão sobre a minha, escondidas atrás das nossas costas, no banco do taxi a caminho de uma noite nossa.
Sinto a falta do momento em que dançavas comigo, do momento em que rias comigo, do momento em que cantavas sem medo ao pé de mim.
Sinto a falta de força para perceber que tudo passa, sinto a falta de coragem para perceber que tudo muda.
Relembro as palavras de um amigo, cuja história eu sigo como sendo o seu mais fiel leitor, que espero que me perdoe por estar aqui a repeti-las, "Amo-te em silêncio porque só o silêncio é eterno".
Que não me faça mal, que me fortaleça, é apenas o que espero. Tudo o resto, saberei como reagir, silenciosamente.
segunda-feira, 28 de Julho de 2008
Onde as deixei
O regresso de férias, tão antagónico dos dias que antecedem qualquer viagem. É sempre uma corrida tão grande, a preparação das malas e de tudo o resto, que nem tempo se tem para aproveitar aqueles momentos. E porque será que os primeiros dias de volta à realidade insistem, pelo contrário, em ser tão vagarosos?
Será para nos fazer esquecer depressa as férias e assim estarmos preparados para o resto do ano laboral? Deve ser por isso, sim. Não pode ser outra a explicação.
Será para nos atirar para cima, lentamente, maliciosamente, com tudo aquilo que, ingenuidade santa, julgávamos estar livres, curados, alérgicos, distantes?
Tão bom seria, em paralelo às malas de roupa que levamos em viagem, que se pudessem arrumar numa caixa (negra, seria sempre uma caixa negra) todas as memórias que nos deitam a baixo, que nos mantêm o coração em suspenso, que nos apertam o peito, este, cheio de vontade de se libertar do sufoco que o prende.
Tanta vontade tenho de experimentar o que uma amiga me disse ter uma vez sentido... que levou todas as mágoas com ela, que as deixou lá, assim que o avião descolou.
Sou eu que me esqueci delas cá... ou terei de insistir e fazer tantas viagens quantas as necessárias, até que este remédio faça o efeito que promete.
Porque de facto o silêncio sufoca-me... mas será também ele o meu libertador.
quarta-feira, 9 de Julho de 2008
Os 33 começam aqui

"Quero pedir-te, com quanta força tenho, que sejas paciente com tudo o que dentro do teu coração não foi ainda resolvido e que te forçes a gostar das tuas próprias interrogações, como se de quartos fechados se tratasse ou de livros escritos numa língua muito estranha.
Não procures as respostas que não te podem ser dadas porque não serás capaz de vivê-las. Vive, agora, as tuas interrogações. Talvez possas depois, gradualmente, sem nisso reparares, viver até ao dia longínquo em que entres na resposta."
Maria Rilke (1875-1926)
sábado, 5 de Julho de 2008
Um final feliz

Depois da ilusão, a desilusão. De quem sente, ouve e vê aquilo que se recusava a perceber.
O que vem depois de deixar de acreditar? O que fica depois de cair?
Quero lembrar-me de tudo o que nunca tive. Quero lembrar-me de tudo o que me esqueci de pedir.
E será assim mais fácil fazer deste dia um ponto de viragem...
Quero perceber o que alguém me disse no final da primeira metade da minha vida. Que existem muitas formas de amor.
Ao amigo que sonha em ver-me feliz, que saiba que já lá estou.
Ao amigo que precisa tanto da minha atenção quanto eu preciso da dele.
Ao amigo que finge não perceber o quanto o aprecio.
Ao amigo (são dois) que tem um oceano a separá-lo de mim, de quem eu tenho imensas saudades, todos os dias.
Ao amigo tímido e reservado, que se escondeu de mim, e que eu lamento.
Ao amigo que me chama, aflito, a meio da noite, para quem eu corro.
Ao amigo que corre para mim, quando a aflição é minha (eu também tenho direito a ir ao hospital).
Ao amigo que me desculpa e que soube esperar pelo meu regresso.
Ao amigo que me permite descobri-lo.
Ao amigo que me incita a ser cada dia melhor.
Ao amigo que entra e sai da minha vida a toda a hora.
Ao amigo que se senta no meu sofá e fala pela madrugada fora.
Ao amigo que me abraça com força quando eu lhe digo quem sou.
Ao amigo que me protege.
Ao amigo que me perde.
terça-feira, 1 de Julho de 2008
Losing Game
For you I was the flame,
Love is a losing game
Five story fire as you came,
Love is a losing game
One I wish I never played,
Oh, what a mess we made
And now the final frame,
Love is a losing game
Played out by the band,
Love is a losing hand
MOre than I could stand,
Love is a losing hand
Self professed and profound
Tilter tips were down
Know you’re a gambling man
Love is a losing hand
Tho' I battled blind,
Love is a fate resigned
Memories mar my mind,
Love is a fate resigned
Over futile odds,
And laughed at by the Gods
And now the final frame,
Love is a losing game
Love is a losing game - Amy Winehouse
Quantos lutos matam uma alma

Pensava que tinha conseguido penetrar tão fundo no teu ser, que poderias ser realmente tu, em todos os momentos da nossa partilha.
Pensava que o teu desejo de vida em comum era tão forte quanto o meu.
Vivi até hoje com a ilusão do teu despertar, do nosso reencontro. Com a ilusão da vida que eu imaginei para nós, que eu vivi em nós, que seria também o teu sonho.
Percebo hoje o vazio que me deixaste, a força que me tiraste, a ilusão que me criaste.
Entendo hoje o momento em que nos desviámos, o momento em que deixaste de acreditar em nós.
Sei hoje que o que te dei foi tão forte, tão diferente de tudo o resto, que fugiste com receio de abalar o teu mundo organizado.
Esperei... e tu não soubeste apagar a minha espera.
Procuraste a minha companhia e eu acreditei que era só a mim que querias.
Acreditei em ti até este dia. Fui eu que não quis ver a realidade... ou foste tu que a escondeste de mim...
terça-feira, 24 de Junho de 2008
Força Tranquila
Finale
3... 2... 1...

"This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I'll never look into your eyes...again
Can you picture what will be
So limitless and free
Desperately in need...of some...stranger's hand
In a...desperate land
...
This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
It hurts to set you free
But you'll never follow me
The end of laughter and soft lies
The end of nights we tried to die
This is the end"
The Doors, "The End" lyrics
quarta-feira, 18 de Junho de 2008
Por uma lágrima tua

Desperto com a sensação de angústia, desta vez misturada com um pequeno sentimento de revolta, de rebelião, de soltar amarras.
Confesso aquilo que quero fazer hoje. A vontade que tenho sentido nestes últimos dias.
Chorar copiosamente, sem parar... Chorar enquanto restarem lágrimas.
Para te expulsar de dentro de mim...
Para que fique tão somente o carinho, a lembrança.
quarta-feira, 11 de Junho de 2008
Eterna

"Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Quem bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!
Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.
Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente te lembrar
Mais doidamente me lembrar de ti!
E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!"
Florbela Espanca
sexta-feira, 6 de Junho de 2008
Pasión...
"No me olvides yo me muero
Amor mi vida es sufrimiento
Yo te quiero en mi camino
Por vos cambiaba mi destino
Ay abrázame esta noche
Aunque no tengas ganas
Prefiero que me mientas
Tristes breves nuestras vidas
Acércate a mi
Abrázame a ti por Dios
Entrégate a mis brazos
Tengo un corazón penando
Yo sé que vos lo está escuchando
Con mil lágrimas te quiero
Pasión sos mi amor sincero
Ay abrázame esta noche
Aunque no tengas ganas
Prefiero que me mientas
Tristes breves nuestras vidas
Acércate a mi
Abrázame a ti por Dios
Entrégate a mis brazos"
terça-feira, 3 de Junho de 2008
Na cidade!

Estava sozinho na cidade, percorri ruas novas, até ali desconhecidas, senti a vida de bairro, pela primeira vez em tempos, na minha cidade, acompanhado pela luz que insiste em penetrar os becos mais estreitos.
Subi as ruas mais íngremes, a mistura de gentes à volta de uma praça, a senhora tipica bairrista que apregoa a quem quiser ouvir (e os estrangeiros querem mesmo) qual é o melhor restaurante da zona (e já agora, diz a senhora, tem ao lado uma loja de souvenirs que não deve perder). Só posso imaginar o motivo de tanta simpatia...
Almocei em zona absolutamente típica, em local bem menos típico, tipo "brunch" (o meu gosto pela cidade ainda não me leva a entrar em qualquer uma das nossas afamadas tascas).
Pois bem, até aqui nada de grande novidade. A novidade vem mais à frente, se os meus cálculos estiverm certos, no próximo parágrafo.
Se bem me recordo, a última vez que o fiz, a última vez que almocei sozinho, num dia de descanso, foi na primeira metade da minha vida, quando a pessoa com quem partilhava a minha existência (tantas vezes penosa para qualquer um dos dois, mas ainda assim memorável) estava num dos seus muitos afazeres profissionais.
Passaram-se 6 anos e neste dia, feriado por sinal, voltei a fazê-lo. A não recear os olhares, a fazer-me despercebido perante o ar de admiração do empregado (neste tipo de local, não deve ser empregado que se chama, deve ser assistente de qualquer coisa).
Voltei, dizia, a sentar-me sozinho a uma mesa, esta em particular uma grande mesa de madeira, já ocupada no canto por dois seres, ainda bem que de outra nacionalidade. Se fossem nacionais achariam estranha a presença de alguém, ali, sozinho, num sitio destinado ao convívio social.
Quer tenha sido por opção, quer tenha sido pelo facto de não ter conseguido arrancar ninguém da cama para me acompanhar, àquela hora tão despropositada (afinal de contas, começar o dia às onze da manhã, num dia feriado, é de facto muito cedo) - existem testemunhas que comprovam a minha tentativa (frustrada) de arrancar alguém da cama - foi antes de mais a superação de uma etapa, a recuperação de um gosto pessoal, a crença na facilidade com que posso ultrapassar barreiras e dar um gosto especial a mim, afinal tão simples.
Afinal tão simples e tão desprovido da necessidade de me fazer sentir acompanhado (ainda que continue a tentar arrancar alguém da cama, logo pela manhã). Daqui até repetir esta proeza ainda passará algum tempo, sei bem, mas o primeiro passo está dado.
Que fossem estes todos os passos ainda por dar.
Relógio de areia

Os minutos, horas e dias que vão passando e que parecem acumular tanto do seu tempo. Sente da mesma forma, sente com a mesma vontade, parece tão distante aquele tempo, que tem coisas que não se lembra.
Vou fechar-te, mas desta vez vou fechar-te por fora. Vou inventar novos dias, novas horas e novos minutos, vou calar a minha vontade até que me seja indiferente este querer.
Penso naquilo que deixo partir, naquilo que julgava estar a perder. Percebo que poderá passar uma eternidade, que aquilo que tenho hoje, para sempre assim ficará. Quero muito mais, quero tudo o resto, para além do presente.
Alguém me dizia um dia, que quanto mais se segura a areia nas nossas mãos, mais depressa ela escorre em fios, pelo meio dos dedos, até que ficamos apenas com as mãos vazias, apenas com a leve memória daquela textura.
Não quero esperar por pouco, não quero ... quero muito, quero tudo.
segunda-feira, 2 de Junho de 2008
Lágrima
"Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
Já me ficou no meu peito
O jeito de te querer tanto
Tenho por meu desespero
Dentro de mim o castigo
Eu digo que não te quero
E de noite sonho contigo
Se considero que um dia hei-de morrer
No desespero que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile no chão
E deixo-me adormecer
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima tua
Que alegria me deixaria matar"
Amália Rodrigues
domingo, 25 de Maio de 2008
Um final

Gostava de saber em qual final estou eu... se no primeiro (não é o primeiro, de certeza), se no décimo, se no centésimo.
Mas o que mais me preocupa não é saber o final em que estou hoje, mas sim não saber quantos ainda virão aí.
Se até o Indiana Jones tem direito a ressuscitar 4 vezes, então por certo eu também terei direito à minha parte.
Se ele (o Indiana) ainda continua por aí a dar saltos descomunais em que só se sobrevive num filme de ficção, então estes finais (os meus) serão também eles suportáveis.
Hoje é um dia surpreendente. Um dia em que não acordei a pensar no mesmo (talvez por efeito das dores musculares, que me fizeram ter pena de mim, desta vez por motivos fisicos, em detrimento de outros motivos mais espirituais), um dia que pode ser o começo do fim... ou que pode ser apenas mais um final... até que voltem as dores (agora sim, as espirituais).
Seja como for, espero estar preparado para aguentar todos estes finais... e para perceber aquilo que realmente irá merecer a minha atenção e dedicação.
Com recaídas, mas até essas são bem-vindas. Mostram-me que sempre fui honesto com aquilo que sinto... e com aquilo que nunca tive medo de dizer em voz alta.
segunda-feira, 12 de Maio de 2008
Revolta

Hoje é o dia do seu regresso. O dia em que põe à prova o seu equilíbrio. Um equilíbrio instável, sabe bem disso, um equilíbrio que terá de ser protegido, construído e reconstruído, as vezes necessárias, até que consiga aguentar as paredes nuas, o seu próprio silêncio, a paisagem imóvel.
A coragem de escrever por cima da história que lhe foi contada, de voltar ao começo, de sentir o frio e o calor, de ouvir um pouco de nada, de chorar sem medo, de sentir com vontade de sonhar.
Olha-o e não sente o mesmo desejo de o beijar...
Ouve-o e não sente a mesma necessidade de tocar a sua pele...
Senta-se perto dele e não sente a mesma ânsia de o abraçar...
Sabe que este será um caminho feito de avanços e recuos, de mágoas e de alegrias, teme pelos dias em que as mágoas vençam e o impeçam de reagir.
Não sabe quantas vezes terá de repetir este pensamento, quantas vezes terá de reescrever estas palavras, ditas desta ou de outra forma, até que sejam realmente verdade.
Não quer que elas se tornem verdade.
quinta-feira, 8 de Maio de 2008
Parede de papel
Aquele era mais um dia em que tentava começar de novo. Em que tentava reinventar-se, começar como uma folha de papel branco, onde pudesse decidir livremente, conscientemente, quais as características que gostaria de mostrar ao mundo, quais os defeitos que gostaria de manter, qual a cor dos olhos que escolheria para com eles impressionar.

Aquele era mais um dia em que queria escolher as barreiras que iria deitar ao chão e quais as paredes que iria reconstruir. Decidiria quem poderia transpor aquela imensidão e quem poderia encontrar, do outro lado, uma imensidão ainda maior.
Gostaria de enganar a sua história, de dizer em boa voz que tudo aquilo que mostrou durante anos foi apenas a forma que uma criança escolheu para se defender do medo que sentia em ser abandonado.
Aquele era mais um dia em que largava as suas tábuas de salvação, em que se afastava da costa calma e sempre eterna e em que demitia todas as amarras que o prendiam. Um dia em que partia para longe de si próprio, para que esquecer e renascer não fosse tão doloroso.
Sabia que o dia estava a começar, sentia uma pequena impressão a nascer-lhe no peito, uma imagem que o afundava, mil e um pensamentos que o resgatavam, não ia fugir daquele dia.
Aquele era mais um dia em que queria escolher as barreiras que iria deitar ao chão e quais as paredes que iria reconstruir. Decidiria quem poderia transpor aquela imensidão e quem poderia encontrar, do outro lado, uma imensidão ainda maior.
Gostaria de enganar a sua história, de dizer em boa voz que tudo aquilo que mostrou durante anos foi apenas a forma que uma criança escolheu para se defender do medo que sentia em ser abandonado.
Aquele era mais um dia em que largava as suas tábuas de salvação, em que se afastava da costa calma e sempre eterna e em que demitia todas as amarras que o prendiam. Um dia em que partia para longe de si próprio, para que esquecer e renascer não fosse tão doloroso.
Sabia que o dia estava a começar, sentia uma pequena impressão a nascer-lhe no peito, uma imagem que o afundava, mil e um pensamentos que o resgatavam, não ia fugir daquele dia.
domingo, 4 de Maio de 2008
Dois sentidos

O pé a tocar na areia, a areia húmida, fria, áspera, que magoava e feria os dedos, fazia sentido.
O calor na cara, no peito, nas pernas, nas costas. A gota de água que escorria lentamente, fazia sentido.
O som quente saído daquela voz, o brilho macio daquela pele, o tom negro daquele cabelo, fazia sentido.
A melodia daquelas palavras, a harmonia daquele canto, a graça daquela dança a par, fazia sentido.
A lucidez daquele pensamento, a clareza daquela opinião, a maturidade daquele coração, fazia sentido.
A mão que agarrava, a perna que tocava, o olhar que invadia, o conforto que transmitia, fazia sentido.
segunda-feira, 28 de Abril de 2008
Terra quente

Estava preso na terra húmida, que ainda assim o aquecia, os pés como raízes, longas, profundas, que o mantinham direito, tudo via à sua volta. Tudo aquilo era dele, tudo lhe pertencia, ou seria ele pertença daquela terra húmida?
Sentia-se preso, mas gostava daquela sensação. Porque afinal não era uma prisão, era uma escolha. Era a sua escolha. Tinha escolhido criar raízes, deixar que a terra o envolvesse, deixar que as árvores lhe tapassem o sol, deixar que as plantas lhe dessem todo o alimento de que necessitava.
Não queria sair daquela terra húmida, queria fundir-se em tudo aquilo que o rodeava, queria ser igual a todos aqueles seres vivos que o acompanhavam. Dali observava tudo, sentia o calor e o frio de cada estação do ano, sentia o coração quente e as veias que pulsavam cheias de força, sentia o aroma das flores e dos frutos, sentia o tacto áspero da terra, a camada lisa do chão de cimento, as pedras brancas do caminho, o cheiro da relva acabada de cortar.
Via os caminhos que tinha percorrido vezes sem conta, os muros e telhados que tinha escalado, as feridas que tinha aberto, as árvores que dizia serem suas, as aventuras que tinha imaginado, os tesouros que tinha escondido e mais tarde encontrado.
Sentia-se afundar naquela terra húmida, sentia que os seus braços iriam desaparecer e dar lugar a mais grãos de terra, que todo ele seria matéria, que ficaria ali, para sempre, quem ele era. Sentia-se afundar e sabia que ali voltaria, que nada lhe pertencia, que era ele o escravo daquela terra.
Iriam passar-se todas as estações do ano, iriam passar-se todos os anos de uma vida e ainda assim, de ali nunca iria sair. Era a recordação daquela terra húmida que o perseguiria nos sonhos, nas conversas, nas suas memórias.
Sentia-se livre, estava liberto, sentia-se solto, suave, vivo, porque nunca abandonaria o peso daquela terra húmida, nunca deixaria esquecer os tons, o cheiro, o toque, o conforto, o olhar, o abraço, a energia daquela terra.
domingo, 27 de Abril de 2008
Consigo ser imperfeito
Tudo o que me mantém preso, tudo o que prende a minha respiração, tudo o que me tolda a visão, tudo o que cala a minha voz, tudo o que me escapa pelos dedos, tudo o que foge de mim...
Consigo resistir enquanto fizer sentido, consigo sofrer enquanto desejar-te, consigo olhar-te enquanto sorrir, consigo ouvir-te enquanto não perder a voz, consigo querer-te enquanto te recordar, consigo ser imperfeito enquanto consiga aprender.
Consigo ser verdadeiro

Mais que o silêncio carregado de palavras, mais que o olhar escondido e envergonhado, mais que um beijo roubado, era a presença avassaladora que o abalava, o calor do corpo que lhe toldava o pensamento, o som da voz que lhe fazia lembrar que tinha chegado a casa, aquela pele que lhe inundava todos os sonhos, a mão que lhe indicava o percurso até à sua essência...
Mais que os receios que o perseguem, mais que a dor do que se esconde, mais que o resgate do que irremediavelmente se perdeu, era a ânsia de procurar o que de novo se encontrou, o desejo de viver para além do conhecido, a vontade de abrir os braços e de perceber que aquele era outro tempo e outro espaço, diferente e desconhecido, fértil e generoso...
Mais que o temor de todas as dúvidas que o inundam, era a certeza de que ali seria amado e desejado, que ali seria livre para ser ele próprio. Que todas as lágrimas fariam sentido, que cada palavra fosse ouvida como a primeira, que cada olhar fosse desejado como o primeiro... e aí iria perceber que também ele era desejado, que também ele era a vontade de regressar e de ali se perder.
quarta-feira, 23 de Abril de 2008
Um fogo frio

O fogo frio foi testemunha do primeiro toque, um toque tão inesperado como aguardado. Um toque timido, disfarçado, escondido e ainda assim, um toque capaz de aquecer a noite mais fria.
A voz no silêncio, o olhar sonhador, a mão que acaricia, o riso que permanece no ar como se de um perfume se tratasse, tudo isto o fogo frio não apagou.
A noite distante, negra como um manto, um céu pesado com um silêncio aterrador e ainda assim, um toque que derrubou paredes, que uniu vontades e que rasgou qualquer sombra e qualquer dúvida.
O fogo frio, friou ficou...
O sorriso e a lágrima

Não conseguia perceber o que mais lhe tinha custado. Se o sorriso, se a lágrima. Sabia sim que lhe tinha custado a viagem de ida, mas ainda mais a viagem de volta.
Sabia que tinha falado para não ser obrigado a escutar, sabia que tinha ouvido tudo... menos aquilo que o desafiava, aquilo que o mantinha acordado.
Sabia que teria de trancar a sua alma, sabia que tinha de colocar a bravura no lugar do coração, que teria de guardar as suas mãos, de limpar os seus lábios de afecto. Sabia que teria de colocar carinho onde antes estava o desejo.
Sabia que no outro dia, aquela seria a sua primeira memória, sabia... esperava lembrar-se... dos mecanismos que o fariam ultrapassar aquela vontade.
Gostaria de ser procurado e de ser encontrado. Agora que se reencontrou a si próprio. Gostaria de ser gostado, gostaria de romper barreiras, gostaria de gritar sem que lhe doesse. Mas tudo isto... sabia que teria de ficar trancado na sua alma.
Sabia que o queria, sabia que de tanto o querer, já não lhe doía tanto não o ter. Sabia que tinha mudado, sabia perder. Gostaria que o amor falasse mais alto do que a dor. Gostaria de ser escutado.
A luz prometida

A luz prometida... ou a certeza, agora sim, que existirão sempre outras formas de encarar um qualquer acontecimento.
A certeza de podermos aprender com quem nos rodeia, com a visão de quem nos acompanha, sempre diferente da nossa.
A certeza que o nosso coração saberá sempre mostrar-nos o caminho a seguir para alcançar aquilo que mais felicidade nos aportará.
sexta-feira, 18 de Abril de 2008
Ilha de Licos

Sem esperar, sem anunciar, a chegada à ilha de Licos trouxe-lhe paz, trouxe-lhe o reencontro com a sua natureza, tirou-lhe o peso que carregava nos olhos, devolveu-lhe o brilho da pele e a graça da provocação.
A ilha de Licos não era mais que fruto da sua imaginação, resultado de acreditar que cada sol que nasce representava uma possibilidade de começar tudo de novo, de acreditar que a diferença poderia trazer união, em vez de afastamento.
A ilha de Licos insiste em fugir da sua mente, mas ele resgata-a, mantem-na viva enquanto sonhar, mantem-na acordada enquanto dormir, enquanto acreditar que a ilha é real, que existe para além daquelas paredes.
Na ilha sopra um vento desolador, que destrói, que tolda a visão, que carrega riscos e armadilhas... mas a ilha está lá, na sua imaginação e isso já lhe basta.
terça-feira, 15 de Abril de 2008
O dia 1

Não se esqueceram de nada. Tinham tudo pensado até ao último detalhe. A luz intimista, a música convidativa, o ambiente acolhedor, a hora tardia, a roupa a preceito.
Tudo, tudo foi pensado em conjunto. Aí sentiu-se parte dele, sentiu-se próximo dele, sentiu que as suas escolhas eram as escolhas dele.
O que não sabiam era que a noite iria acabar cedo demais. Que a festa iria terminar antes de terem tido tempo de saciarem todas as suas vontades, antes de guardarem na pele o cheiro um do outro, antes de guardarem no coração a cor dos olhos um do outro.
A noite terminou e sentiu a solidão de quem queria tudo e que tudo lhe escapou pelos dedos, sem que conseguisse guardar um pouco que fosse daquele momento.
Guardou apenas o seu olhar, receoso, timido, convidativo, sincero. Esta é a recordação que não se apagará... e que tornará todas as outras em meras sombras cinzentas, a recordação de quem fez daquela noite o melhor que sabia.
segunda-feira, 14 de Abril de 2008
Hoje é a preto e branco
domingo, 13 de Abril de 2008
Os primeiros anos

Tinha medo dele... não o via, mas sabia que estava li, no fundo, na escuridão. Ouvia barulho, ouvia a respiração dele, sabia que aguardava, sem pressa, com toda a calma que a idade lhe tinha ensinado, com a certeza de que conseguiria esgotá-lo, desesperá-lo.
Sempre que lá voltava, parecia-lhe maior a escuridão. Recomeçava sempre do mesmo ponto, tirando pedra a pedra, obrigando a luz a entrar no espaço, a iluminar todos os recantos, a expulsar todos os medos.
A última vez que lá esteve pareceu-lhe igualamente escuro, intransponível, frio, desolador, silencioso... mas daquela vez sabia que aquilo que os separava era apenas um ténue véu, que levaria todos os restos de ausências e de abandono para longe.
São estes os primeiros anos. Anos de uma indecisão atroz, de uma incompreensão brutal, de uma desadaptação flagrante. Estavam de costas voltadas, sem saber como se encontrarem...
És o melhor de mim
A graça e a vontade com que empreenderam aquela viagem, a leveza que os acompanhou em todos os momentos, a cumplicidade que os uniria para sempre, pelo menos é esse o seu desejo e o seu maior receio, fariam desta imagem um local de redenção, um local a que nunca mais quereria voltar, para que a última memória fosse uma memória saudável e reconfortante.
sexta-feira, 11 de Abril de 2008
Alarme...

Ele devia ter percebido os sinais. Sinais que gritavam bem alto que algo estava mal... sinais que ainda hoje o deixam na dúvida, se o que estava mal era o que ficava para trás ou aquilo que tinha acabado de fazer.
O carro não o deixou fazer a viagem tão longamente programada (ainda há quem duvide que aquelas máquinas têm personalidade própria), a chuva impediu-o de sair à rua, tão ameaçadora que era, a própria casa oprimia-o, tudo saltava, armários que se abriam, livros que se projectavam no ar, azulejos que insistiam em cair no chão de pedra, a roupa fria que não o aquecia, as janelas que se fechavam sobre si próprias, impedindo-o de ser visto por alguém, de ser resgatado por alguém.
Ele devia ter percebido os sinais. Sinais que insistiam em alertá-lo... algo tens que fazer, tens de te salvar, tens de correr, de lutar... Ainda hoje ele duvida daqueles sinais. O que queriam dizer exactamente? O mal ficava para trás? Ou o mal era o que tinha acabado de fazer?
terça-feira, 8 de Abril de 2008
O elogio da amizade

Imaginem o que seria se ainda hoje estivessemos em contacto com todas as pessoas que cruzaram as nossas vidas. Sei por mim que, dada a minha memória destreinada, teria de pedir às pessoas para andarem com uma etiqueta ao pescoço, com os nomes e principais dados biográficos, porque de outra forma não conseguiria juntar aquela cara a um determinado contexto.
Serve isto de desculpa para me convencer a mim próprio que todos os encontros e desencontros, todos os surgimentos e desaparecimentos, de todos aqueles que tenho tido o privilégio de conhecer, são algo de natural. Que todos desempenhamos um determinado papel na vida de alguém, mas que esse papel pode ser e é mesmo, à semelhança das séries televisivas, curto, limitado, com início e com fim.
E atento ao título deste "escrito" (ainda não arranjei melhor forma para caracterizar o que ando aqui a fazer), serve este para fazer o elogio a todos os que, de alguma forma, me tocaram e têm tocado.
Ao amigo que me permite ser verdadeiro e imperfeito, ao amigo timido que insiste em ter vergonha de falar, ao amigo altivo e distante que quebra a carapaça e se dá a conhecer, ao amigo que escuta sem ajuizar, ao amigo que acredita ser a conversa a melhor terapia de choque para qualquer mal, ao amigo que nos surpreende com a sua honestidade, a todos estes, é para eles que escrevo.
Dir-se-ia que, antes de mais, teria de o fazer para mim mesmo (o acto de escrever). Sem dúvida que o faço por mim, mas só porque estão vocês do outro lado.
segunda-feira, 7 de Abril de 2008
A mudança

Sinto que as mudanças que imprimi na minha vida tornaram-se por vezes desconfortáveis, violentas, dificeis de encarar. Que representam um grande esforço da minha parte... que não deixam de ser um verdadeiro acto de coragem, mas que tiveram de facto um custo muito elevado.
O custo de me sentir vulnerável, de me sentir um pouco como um malabarista sem rede, de sentir por vezes a desorientação de quem caminha sem ajuda... mas trouxe também o reverso da medalha. O benefício de começar agora a sentir que sou dono de mim próprio, que sou o responsável pelo bom (e pelo mau) que me acontece, de sentir que volto a habitar o meu corpo e a preencher a minha alma, agora que me encontro...
Mudanças que tantas vezes me fazem duvidar das minhas escolhas, das minhas opções, mas que ainda assim... fazem-me sentir mais próximo de mim próprio, fazem-me sentir vivo, sentir que a partir daqui, a partir do momento em que decidi ser livre de amarras, serei concerteza capaz de alcançar todas as minhas vontades.
Foram precisos muitos anos para percebê-lo, foi preciso (e ainda bem que assim foi) ter conhecido um conjunto de pessoas que a pouco e pouco tem vindo a mudar a minha vida, umas pelo conforto incondicional que aportam, outras pelas lições de vida que, consciente ou incoscientemente, me obrigaram a aprender...
E se tudo isto é um processo contínuo, o meu objectivo é que o primeiro "escrito" deste blog seja cada vez uma realidade mais distante... até que um dia seja apenas uma memória confortável...
quarta-feira, 5 de Março de 2008
Mais um a falar de saudade
Sou mais um a falar de saudade. Da dor da ausência, da dor que teima em permanecer, em ficar colada ao meu corpo, em revestir a minha forma, como um manto invisível.
A dor que me acompanha, que atravessa o meu espírito, a minha alma, que me retira qualquer rasgo de lucidez, que me corta tudo por dentro, que me tira as forças.
Não posso insistir nesta dor. Aceito-a e deixo-a partir, aprendo a guardar a minha dor e a acalmá-la... não consigo fazê-lo, não sei como...
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